Sobre a Autora 

Fátima Diniz Castanheira é advogada em São Paulo, especializada em Direito dos Contratos e pesquisadora independente da previdência complementar patrocinada – fundos de pensão.

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Covid-19 em crianças e adolescentes: Síndrome Inflamatória Multissistêmica avança no Brasil

Segundo dados do Ministério da Saúde, em apenas três meses, os casos de Síndrome Inflamatória Multissistêmica saltaram de 71 para 486, com 34 mortes de crianças e adolescentes no país. Os números constam do Boletim Epidemiológico Vol. 51 nº 43 da Secretaria de Vigilância em Saúde, publicado em 03.11.2020, com base nos casos notificados até 10.10.2020.

 

A dignidade e a proteção à vida das crianças e adolescentes ganham espaço neste blog porque é um contingente muito grande ameaçado por essa síndrome. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, em 2018, o Brasil tinha 35,5 milhões de crianças (até 12 anos de idade)[1]. Somando se a esse número as faixas etárias seguintes consideradas pelo Ministério da Saúde, até os 19 anos, o total salta para 68,8 milhões.

 

Reunimos neste artigo não só os dados do monitoramento oficial da síndrome, mas também  os links de vários estudos científicos realizados nos últimos meses, os quais poderão ajudar os pais na identificação precoce da síndrome, e aos profissionais da saúde o acesso às pesquisas já realizadas.

 

Alguns estados já deram o alerta sobre a lotação das UTIs pediátricas, mesmo com as crianças em isolamento desde o início da pandemia. Por isso, é preciso cautela na volta às aulas presenciais, antes de expô-las ao contágio. É preciso ter infraestrutura para a demanda.

 

1. Houve aumento de 584,50% nos casos em 3 (três) meses

 

De julho a outubro/2020, ou seja, em apenas três meses, o número de casos dessa síndrome saltou de 71 para 486, com 34 mortes de crianças e adolescentes no país. Houve um aumento real de 584,50%.

 

A descoberta dessa explosão de casos só foi possível graças ao monitoramento feito pelo Ministério da Saúde, isto porque no início da pandemia acreditava-se que as crianças eram meros vetores e apenas transmitiam a Covid-19. No entanto, com o passar dos meses os casos de crianças acometidas pela Covid-19, e em estado grave, foram se multiplicando em todo o mundo, como registram os documentos citados neste artigo. Os registros eram escassos e havia cerca de 500 casos em todo o mundo. Agora, em poucos meses, o Brasil já tem 486 casos catalogados.

 

Em 15 de maio deste ano, a Organização Mundial da Saúde – OMS deu o alerta sobre o agravamento da Covid-19 nas crianças. Em 20 de maio, a Sociedade Brasileira de Pediatria – SBP também emitiu um alerta sobre a existência da síndrome[2].

 

O Ministério da Saúde, prontamente, passou a monitorar os casos em todo o país e determinou que os estados federados notificassem os casos. Desde então, a Secretaria de Vigilância Sanitária passou a emitir boletins periódicos.  

 

Até o mês de julho, haviam sido catalogados no Brasil apenas 71 casos e 3 óbitos, os quais estavam distribuídos em quatro estados, segundo informou o Ministério da Saúde em 06.08.2020. Eis o resumo em ordem decrescente de casos[3]:

 

Brasil monitora síndrome que pode estar associada ao coronavírus

Ceará. . . . . . . :  29 casos

Rio de Janeiro:  22 casos e 3 óbitos

Pará. . . . . . . . :   18 casos

Piauí.  . . . . . . :    2 casos

 

Em 03.11.2020, foi publicado o Boletim SVS nº 43, com os casos notificados até 11.10.2020, já com 486 casos e 34 mortes decorrentes dessa síndrome. Nesse boletim, os estados foram dispostos em ordem alfabética e os dados separados por faixa etária e por sexo. A partir desse monitoramento o Ministério da Saúde conseguiu mapear o avanço da doença no país.

 

2. A maior incidência foi sobre as crianças menores de 10 anos, mas o maior percentual de mortes foi entre os adolescentes

 

Aproveitando os números informados pelo Ministério da Saúde, nós os dispusemos de forma mais clara e objetiva, em ordem decrescente de casos, listando em primeiro lugar os estados mais afetados. Eis o resultado[4]:

 

Boletim Vol. 51 nº 43 – notificados até 10.10.2020: 486 casos e 34 óbitos                      

São Paulo. . . . . . . . . . :    77 casos e 5 óbitos                 

Pará. .  . . . . . . . . . . . . :    63 casos e 8 óbitos

Ceará. . . . .  . . . . . . . . :    63 casos e 2 óbitos                  

Rio de Janeiro.  . . . . . :    48 casos e 6 óbitos                 

Distrito Federal. . . . . . :    39 casos e 1 óbito

Bahia.  . . . . . . . . . . . . :     35 casos e 2 óbitos

Minas Gerais. .  . . . . . :    27 casos

Pernambuco..  . . . . . . :    23 casos e 2 óbitos

Alagoas. . . . . . . . . . . . :    22 casos

Santa Catarina. . . . . . :    14 casos e 1 óbito

Rio Grande do Norte.:     12 casos e 1óbito                         

Espírito Santo. . . . . . . :    12 casos

Paraná. .. . . . . . . . . . . :     12 casos e 3 mortes

Rio Grande do Sul. . . :    11 casos

Paraíba. . . . . . . . . . . . :     10 casos e 2 óbitos

Piauí. . . . . . . . . . . . . . . :      7 casos e 1 óbito  

Mato Grosso. . . . . . . . :      5 casos

Maranhão. .  . . . . . . . . :      3 casos                         

Acre. . . . . . . . . . . . . . . :      1 caso

Goiás. . . . . . . . . . . . . . :      1 caso

Roraima. . . . . . . . . . . :       1 caso

Amapá.  . . . . . . . . . . . :      0

Amazonas. .. . . . . . . . :      0

Mato Grosso do Sul.  :      0

Rondônia. . . . . . . . . . . :     0

Sergipe. . . . . . . . . . . . :      0

Tocantins. .  . . . . . . . . :      0

 

O índice de letalidade (número de mortes em relação ao número de infectados) informado pelo Ministério da Saúde foi de 7%, mas esse cálculo foi feito de forma global, sobre todas as idades. Se o cálculo for feito por faixa etária, como fizemos, os números são outros, bem mais precisos, e assustadores. Ei-los:

 

Número de casos por faixa etária, sexo e óbitos em todo o Brasil:

Faixa etária            Número de casos        Número de Óbitos         Letalidade

De 0 a 4 anos:         195 (99F e 96M)          20 (10F e 10M)               10,25%

De 5 a 9 anos:         154 (66F e 88M)            3 (01F e 02M)                1,94%

De 10 a 14 anos:     119 (49F e 70M)            7 (06F e 01M)                5,88%

De 15 a 19 anos:       18 (08F e 10M)            4 (04F e 00M)              22,22%

                   Total:   486 (222F e 264M)        34 (21F e 13M)                 

 

Nota-se pela demonstração acima que, em nível nacional, a incidência da síndrome é infinitamente maior entre as crianças pequenas. Foram 349 casos e 24 mortes entre os menores de 10 anos, mas o índice de letalidade maior é entre os mais velhos, de 15 a 19 anos (22,22%). Como se observa, a doença incide sobre meninos e meninas de todas as idades.

 

Essa explosão de casos nos meses de julho a outubro/2020, tem duas explicações. Primeiro porque a doença passou a ser melhor conhecida e quantificada na medida em que o Ministério da Saúde passou a monitorá-la. Segundo porque o aumento do número de casos coincide com a retomada da economia em vários estados e municípios brasileiros, com relaxamento das medidas sanitárias (fase amarela) no final de julho. Apesar de as crianças estarem em isolamento e sem ir à escola desde o começo da pandemia, a saída dos adultos (pais e irmãos mais velhos) para o trabalho pode ter causado a contaminação através de roupas, cabelos e calçados, sobretudo se usuários do transporte público – o grande vilão.

 

O curioso é que o boletim do Ministério da Saúde mostra 6 (seis) estados zerados. Será? É difícil acreditar que o Amazonas não tenha nenhum, sobretudo porque o seu vizinho Pará, situado na mesma região amazônica, está entre as maiores incidências da síndrome no país, cujos casos foram detectados primeiro pelo Instituto Evandro Chagas. É mais provável que tenha ocorrido falta de notificação ou o desconhecimento da síndrome. Se houve um ou outro, o tempo dirá porque esses casos fatalmente vão aparecer.

 

Uma peculiaridade da síndrome é que a incidência nas crianças não tem relação com o número geral de casos da Covid-19 em adultos. Prova disso é que no ranking geral entre os adultos, só o Estado de São Paulo – o maior e mais atingido, permanece no topo de ambas as pirâmides epidemiológicas. Eis o ranking geral da Covid-19 por número de casos em 08.11.20:

 

                                 Número de casos         Mortes

São Paulo:                      1.117.147               39.311

Minas Gerais                     359.991                 9.015

Bahia                                 354.043                 7.622

Rio de Janeiro                   311.014               20.600

 

Que motivos teriam levado os estados do Pará e do Ceará a uma incidência tão alta da síndrome entre as crianças?  Eis aqui um campo vasto para os pesquisadores.

 

3. Sintomas da Síndrome Inflamatória Multissistêmica

 

O já citado Boletim do Ministério da Saúde, o artigo do Jornal da USP e demais documentos aqui citados informaram os principais sintomas, que podem ocorrer durante ou após a infecção pelo coronavírus. Listamos a seguir alguns dos principais sintomas para auxiliar os pais na identificação dessa síndrome, para ajudar na rápida identificação e na busca do tratamento adequado.  Ei-los:

 

. Febre alta e persistente acompanhada de um conjunto de sintomas;

. Dor abdominal;

. Diarreia e vômito;

. Manchas vermelhas na pele, erupções cutâneas iguais as da síndrome de Kawasaki;

. Inchaço nas extremidades – dedos de Covid [5];

. Conjuntivite;

. Hipotensão (pressão baixa);

. Sintomas respiratórios como coriza, tosse e aumento dos gânglios, mas estes não estão presentes em todos os casos;

. Alteração cardíaca ou alteração neurológica nos casos mais graves.

. Elevação dos marcadores inflamatórios, podendo o quadro evoluir para choque e coagulopatia.

 

A Dra. Marisa Dolhnikoff, professora da FMUSP e uma das autoras do trabalho mencionado no item 4.1, definiu a síndrome com clareza num artigo do Jornal da USP, nos seguintes termos:

 

“A síndrome é um quadro inflamatório sistêmico grave, identificado em crianças e adolescentes, que pode atingir vários órgãos, como o trato gastrointestinal, pulmões, pele e sistema nervoso central, e provocar disfunção cardíaca em casos mais graves”.

 

Já no citado Boletim nº 43 da Secretaria de Vigilância Sanitária, a síndrome está descrita nos seguintes termos:

 

“Trata-se de uma doença multissistêmica com amplo espectro de sinais e sintomas, caracterizados por febre persistente acompanhada de um conjunto de sintomas que podem incluir gastrointestinais – com importante dor abdominal – conjuntivite, exantema (rash cutâneo), erupções cutâneas, edema de extremidades, hipotensão, dentre outros. Os sintomas respiratórios não estão presentes em todos os casos. Há importante elevação dos marcadores inflamatórios e o quadro clínico pode evoluir para choque e coagulopatia.

 

Embora tenha o quadro clínico bastante semelhante à síndrome de Kawasaki completa ou incompleta, a SIM-P geralmente ocorre em crianças mais velhas, com alterações evidentes dos marcadores inflamatórios e importante disfunção cardíaca. ”

 

De fato, nos primeiros casos identificados no país, a incidência foi maior entre as crianças mais velhas, mas com a propagação da síndrome houve mudança de faixa etária e hoje atinge em maior número os menores de 10 anos, como demonstrado no item 2 retro.

 

4. Estudos e pesquisas realizados em crianças com Covid-19 no Brasil e no mundo

 

Registramos a seguir alguns trabalhos de pesquisadores do Brasil e do mundo, os quais ajudarão no conhecimento dessa nova síndrome e, sobretudo no enfrentamento dela.   

 

4.1. Estudo da síndrome pela Faculdade de Medicina da USP- FMUSP

 

Como noticiou o Jornal da Universidade de São Paulo - USP em 25.08.20, foi realizado um estudo no caso de uma menina de 11 (onze) anos de idade, sem problemas anteriores de saúde. Ela foi internada em estado grave e veio a falecer pelas complicações causadas pela síndrome. O caso foi analisado pelos médicos do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP – FMUSP e publicado na revista médica The Lancet. Destacamos alguns trechos do artigo[6]: 

 

Estudo relaciona vírus da covid-19 no coração a síndrome rara que afeta crianças

. . . . . . . .

“O estudo relatou, pela primeira vez, a presença de partículas do vírus da doença em células musculares cardíacas, determinando uma relação causal entre a covid-19 e a síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica (SIM-P), um processo inflamatório grave que pode afetar diversos órgãos, inclusive o coração. Os resultados do estudo, que contribui para entender os efeitos da doença, são descritos em artigo publicado na revista médica The Lancet Child & Adolescent Health.

. . . . . . . . . . .

A criança não apresentava doenças previamente existentes, e foi levada ao pronto-socorro do Instituto da Criança do HC em estado grave, apresentando desconforto respiratório, gripe, febre alta persistente e dor abdominal. “Após a entrada na UTI, o quadro evoluiu para disfunção cardíaca e choque cardiogênico em 28 horas, com necessidade de ventilação mecânica pulmonar e suporte de medicações para o sistema cardiovascular”, relata a médica Juliana Ferranti, que participou do estudo. “Foi uma evolução grave da covid-19, muito rara dentro da pediatria”. A confirmação da doença foi feita por um teste de PCR realizado após a morte da paciente.

 

Durante o atendimento, a paciente foi submetida a exames de sangue, radiografia e tomografia de tórax. “Devido à evolução clínica, que já sugeria um quadro de miocardite e choque cardiogênico, também foram feitos eletrocardiograma [ECG] e ecocardiograma [ECO] para avaliar a função cardíaca”, relata Juliana. “Os exames indicaram um processo inflamatório importante, com aumento de marcadores inflamatórios, e a evolução clínica, associada aos resultados do ECG e ECO, mostrava comprometimento severo do funcionamento do coração.”

 

O estudo teve a participação dos departamentos de Patologia, Pediatria, do Instituto da Criança e da Gastroenterologia da FMUSP. A investigação post-mortem foi realizada pelo Grupo de Autópsia Minimamente Invasiva do Departamento de Patologia da FMUSP, que inclui os professores Marisa Dolhnikoff, Paulo Hilário Nascimento Saldiva, Luiz Fernando Ferraz da Silva, Thais Mauad e os pesquisadores Amaro Nunes Duarte-Neto, Renata Aparecida de Almeida Monteiro e Khallil Taverna Chaim. A professora Elia Garcia Caldini, responsável pelo Centro Multiusuário de Microscopia Eletrônica do HC, conduziu a parte de microscopia eletrônica do estudo.   

 

Esse estudo mostrou os efeitos devastadores dessa síndrome sobre o organismo da criança.

 

4.2. Nota Técnica da Secretaria de Saúde do Ceará sobre a síndrome 

 

O Estado do Ceará foi um dos primeiros estados atingidos com um grande número de casos da síndrome no Brasil. Lá, a incidência maior foi entre as crianças mais velhas, na faixa de 10 a 14 anos, com 14 casos, seguido da faixa de 5 a 9 anos com 13 casos.

 

Em 07.08.2020, a Secretaria da Saúde do Ceará emitiu uma nota técnica informando os dados da síndrome naquele estado. Detalhou os sintomas dos casos analisados e os procedimentos médicos a serem adotados pelos profissionais da saúde no socorro às crianças e adolescentes acometidos pela síndrome[7].

 

Esse trabalho deu bom resultado porque o número de mortes ficou estabilizado em apenas 2 (dois), apesar do aumento significativo do número de casos nos meses de setembro e outubro.

 

4.3. Pesquisa do Instituto Evandro Chagas – Pará

 

Em agosto/2020, os pesquisadores Emmerson Carlos Franco de Farias, Maria Cleonice Aguiar Justino e Mary Lucy Ferraz Maia Fiuza de Mello desse Instituto e a Santa Casa de Misericórdia do Pará divulgaram a análise feita num lactente da região da Amazônia. Esses achados podem ajudar na compreensão e enfrentamento da síndrome nas crianças[8].

 

O Instituto Evandro Chagas, do Estado do Pará, foi o primeiro a enviar estudo ao Ministério da Saúde, como se constata pelos primeiros boletins da Secretaria de Vigilância Sanitária.

 

4.4. Distinção entre a síndrome associada à Covid-19 e a síndrome de Kawasaki – USP Ribeirão Preto-SP

 

Os primeiros casos de Síndrome Inflamatória Multissistêmica foram confundidos com a Síndrome de Kawasaki devido às manchas vermelhas na pele. Quem demonstrou com clareza a distinção entre ambas as síndromes foi a Dra. Maria Célia Cervi, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, como noticiou o Jornal da USP em 09/09/2020. Eis um trecho do artigo[9]:

 

Síndrome multissistêmica pediátrica pode estar associada ao vírus da covid-19

 

“Segundo a professora Maria Celia Cervi, do Departamento de Puericultura e Pediatria da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP e chefe da Divisão de Infectologia Pediátrica do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto (HCFMRP) da USP, quando desencadeada por outros vírus, a síndrome leva o nome de síndrome de Kawasaki, em homenagem ao médico japonês que a descobriu. “Na nossa casuística com relação aos casos de doença de Kawasaki ou Kawasaki atípico, tivemos crianças com enterovírus, que é mais comumente, adenovírus e já vi com influenza também. Então, vários vírus que têm a porta de entrada respiratória ou gastrointestinal podem ocasionar essa síndrome e eles são comuns na infância. ”

Com a pandemia, a síndrome recebeu um novo nome para tratar de casos relacionados ao coronavírus. Os sintomas mais comuns da síndrome são “febre durante mais de três dias, diarreia e vômito. Pode apresentar erupção cutânea, assim como quadro respiratório leve, coriza nasal, tosse e aumento dos gânglios. Pode apresentar alguns componentes mais graves, como alteração cardíaca ou alteração neurológica”. Embora a síndrome seja prescrita principalmente em menores de 19 anos, a professora compartilha que já houve casos em jovens adultos de 30 anos.

 

O tratamento da SIM-P é realizado com anti-inflamatórios e anticorpos, conforme a gravidade da inflamação. Para prevenir a síndrome, o primeiro passo é evitar a contaminação pelo coronavírus. Caso um membro da família da criança tenha se contaminado, é importante isolar o adulto para evitar que a criança se contamine também. O segundo passo é ficar alerta aos sinais que a criança dá após o adulto se recuperar da covid-19. Caso a criança apresente sintomas, é importante avisar o pediatra se teve caso de contaminação na família” (grifos nossos).

 

Interessante observar que a prevenção, segundo a professora, consiste no isolamento do adulto contaminado para preservar a saúde da criança.

 

4.5. Pesquisadores de Harvard descobriram que as crianças têm carga viral alta

 

Em agosto, uma pesquisa da Escola Médica da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos descobriu que as crianças têm carga viral alta. Em pouco tempo, a notícia ganhou destaque na mídia do mundo inteiro. No Brasil, foi amplamente divulgada pela TV e pelos jornais como o Estado de Minas[10].

 

Essa carga viral alta nas crianças pode ser decorrente das transmissões do coronavírus pelo ar. No início da pandemia acreditava-se que as transmissões ocorriam somente através das superfícies, mas depois os cientistas descobriram que o vírus sobrevivia em partículas flutuantes – aerossóis, a aproximadamente 1,5 m do solo, por várias horas. Muito embora nenhum cientista tenha aventado tal possibilidade, essa é uma simples questão de lógica. Ora, se os aerossóis pairam no ar a 1,5m de altura (premissa maior), e as crianças, por sua baixa estatura, vivem e respiram nesse espaço contaminado (premissa menor), logo estão expostas a uma carga viral mais alta e podem ser infectadas (conclusão lógica). Essa seria uma explicação plausível para os casos de crianças pequenas contaminadas, cujos familiares permaneceram saudáveis. 

 

5. UTIs pediátricas lotadas colocam o Brasil em alerta

 

O avanço dessa síndrome já foi percebido em vários estados brasileiros, com evidente lotação das UTIs pediátricas. Alguns estados já constaram o aumento de casos e já estão tomando providências para o enfrentamento dessa moléstia grave. Vejamos alguns exemplos:

 

Ceará: foi o Estado com maior incidência no mês de julho, com 29 casos. A Secretaria de Saúde do Ceará catalogou os casos, listou os sintomas e, em 07.08.20, emitiu a já citada Nota Técnica para auxiliar os profissionais da saúde no enfrentamento da síndrome.     

 

Pernambuco: o Estado abriu novos leitos de UTI infantil para garantir o atendimento às crianças, noticiou o Diário de Pernambuco em 17.09.2020[11].

 

Bahia: o prefeito de Salvador, ACM Neto, em 13.10.2020, veio a público através da Rede Globo de televisão para manifestar sua preocupação com o fato de sua cidade ter atingido o índice de 70% das UTIs pediátricas[12].

 

Esses fatos recentes nos levam a uma inevitável reflexão: estaria o Brasil preparado para socorrer as crianças e os adolescentes em grande escala? Afinal, eles são o futuro do país, os trabalhadores do amanhã.

 

Portanto, é imperioso que o país, além de monitorar o avanço da síndrome, monitore também o número de leitos de UTI. Também é preciso, em regime de urgência, investir numa vacina para as crianças, uma vez que das atuais, apenas uma está sendo testada em crianças, mas só de 12 anos para cima. As das crianças pequenas ficaram para depois.

 

6. Síndrome Inflamatória Multissistêmica em adultos

 

Há relatos de casos da síndrome em adultos, como informou a Dra. Maria Celia Cervi, no artigo transcrito no item 4.4 retro. Há também um artigo da Sanar Medicina fazendo referência ao registro de um caso publicado na revista Lancet[13]. 

 

Mas o nome Síndrome Inflamatória Multissistêmica Pediátrica – SIM-P, merece reparo para retirada da letra "P" porque ela não é uma exclusividade das crianças. Está comprovada a sua incidência, e com alta letalidade, sobre os adolescentes e também nos adultos.

 

Importante observar a diferença conceitual do vocábulo "criança" na quantificação destas para a volta às aulas. O Ministério da Saúde classificou para controle da síndrome pediátrica os cidadãos de 0 a 19 anos. No entanto, os dados estatísticos do IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas seguem o conceito jurídico do Estatuto da Criança e do Adolescente – Lei 8.069/90, que considera como criança o cidadão só até os 12 anos incompletos; adolescentes dos 12 aos 18 anos, e daí em diante adulto. Por esse conceito mais amplo a síndrome atingiu os adultos, não só os da faixa entre 18 a 19 anos, mas também aqueles classificados indevidamente como Síndrome de Kawasaki. Na tênue linha divisória entre a adolescência e a fase adulta muitos jovens adultos ou adultos jovens foram acometidos por essa síndrome, mas não foram catalogados, seja por falta de informação a respeito, seja porque foram catalogados indevidamente como síndrome de Kawasaki.

 

Pelo conceito jurídico de criança o IBGE aponta a existência de 35,5 milhões de crianças (até 12 anos), em dados de 2018. Quando se inclui a idade até 19 anos o total salta para 68,8 milhões. Portanto, o Brasil tem uma considerável parcela da população na mira dessa síndrome. 

 

O critério para quantificar a síndrome no Brasil e no mundo não há de ser a idade (crianças), mas o conjunto de sintomas graves descritos no item 3 retro. 

 

8. Volta às aulas precisa ser analisada com cuidado

 

Na discussão da volta às aulas há um evidente conflito de interesses. De um lado estão os defensores da vida, sobretudo os pais; de outro estão os defensores da retomada econômica.

 

Em São Paulo, maior cidade brasileira, 80% dos pais são contra a volta às aulas neste final de ano, conforme revelou a última pesquisa feita pelo Ibope na Capital. Afinal, estamos chegando ao fim de um ano letivo já prejudicado pela perda de mais de 200 dias de aulas presenciais e é preciso avaliar os prós e os contras dessa volta.

 

Os defensores da volta às aulas invocam em seu favor o fato de alguns países europeus terem mantido as escolas abertas durante o isolamento, como o Reino Unido. Por evidente, não se pode fazer tal comparação porque são povos totalmente diferentes não só do ponto de vista econômico, mas, sobretudo social e cultural. E ainda que assim não fosse, há notícias de que o vírus disseminado na Europa produziu efeitos menos graves que no Brasil. Um estudo recente, divulgado pela jornalista Suzana Camargo do Conexão Planeta, revelou que os pesquisadores da Queen’s University, de Belfast, na Irlanda do Norte, constataram apenas problemas gastrintestinais nas crianças da Irlanda do Norte, Escócia, Inglaterra e país de Gales, que testaram positivo para Covid-19[14].

 

No Brasil, país marcado por imensa desigualdade social, a realidade é bem outra porque nos bairros mais distantes do centro às vezes não chega água nem para beber, quanto menos para a higienização das mãos, do corpo e das roupas para prevenção da covid-19. Aliás, como noticiou a Agência Brasil, um estudo feito pelo Instituto Pólis constatou um maior número de mortos por Covid-19 entre as pessoas negras, no período de março a julho deste ano. O fenômeno ocorreu devido às piores condições de vida dessa população, em média piores que as dos brancos, não só em função da renda, mas em grau de instrução, fatos que contribuíram para essa maior essa vulnerabilidade[15].

 

9 . Conclusão

 

Nesse contexto, a volta às aulas é discutível e parece estar relegada ao próximo ano, mas ainda assim é preciso repensar as vacinas e desenvolver uma específica para as crianças pequenas. Além disso, na volta às aulas há de se considerar ainda o risco de contaminação de pessoas idosas moradoras do mesmo imóvel, como descrito em nosso artigo anterior.

 

De qualquer forma, além do controle e do mapeamento da síndrome, é preciso que o Ministério da Saúde crie também um controle rigoroso das UTIs pediátricas em todos os estados da federação, assim como um controle de forma global. Também seria de bom alvitre incluir a definição dessa síndrome entre as doenças de A a Z no site.  

 

Essa parcela considerável da população constitui o futuro da nação; os trabalhadores do futuro.Logo, a vida desses milhões de crianças, adolescentes e jovens adultos precisa ser preservada.

 

10. Atualizações

 

Este artigo será atualizado na medida em que surgirem novos dados ou novas pesquisas. 

 

Reprodução autorizada desde que citada a fonte.

[1] Perfil das crianças do Brasil. IBGE, disponível em:

https://educa.ibge.gov.br/criancas/brasil/2697-ie-ibge-educa/jovens/materias-especiais/20786-perfil-das-criancas-brasileiras.html#:~:text=A%20Pesquisa%20Nacional%20por%20Amostra,de%20cerca%20de%20207%20milh%C3%B5es Acesso em 06.11.2020.

 

[2] Nota de alerta da Sociedade Brasileira de Pediatria. SBP, 20/maio/2020. Disponível em:

https://www.sbp.com.br/fileadmin/user_upload/22532d-NA_Sindr_Inflamat_Multissistemica_associada_COVID19.pdf

 

[3] Brasil monitora síndrome que pode estar associada ao coronavírus. Ministério da Saúde, 06/ago/2020. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/brasil-monitora-sindrome-que-pode-estar-associada-ao-coronavirus Acesso em 19.08.2020.

 

[4] Boletim SVS - Volume 51 Nº 43 de 03.11.2020. Ministério da Saúde, 03/nov./2020 (casos notificados até 03.10.20). Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/media/pdf/2020/novembro/03/boletim_epidemiologico_svs_43.pdf Acesso em 05.11.20

 

[5] Dedos de Covid - imagens. Google. Disponível em: https://www.google.com/search?q=dedos+de+covid&tbm=isch&ved=2ahUKEwiC4PDI7fLsAhXoALkGHZrZDYMQ2-cCegQIABAA&oq=dedos+de+covid&gs_lcp=CgNpbWcQAzICCAAyAggAMgIIADICCAAyAggAMgIIADIECAAQHjIGCAAQCBAeMgQIABAeMgQIABAYOgUIABCxAzoECAAQQ1C5jwFYw7MBYL29AWgAcAB4AIABZ4gB_gmSAQQxMS4zmAEAoAEBqgELZ3dzLXdpei1pbWewAQDAAQE&sclient=img&ei=GNinX4L0H-iB5OUPmrO3mAg&bih=757&biw=1440

 

[6] BERNARDES, Júlio. Estudo relaciona vírus da covid-19 no coração a síndrome rara que afeta crianças. Jornal da USP, 25/ago/2020. Disponível em:

https://jornal.usp.br/ciencias/estudo-relaciona-virus-da-covid-19-no-coracao-a-sindrome-rara-que-afeta-criancas/ Acesso em 11.10.20.

 

[7] Nota Técnica da Secretaria de Saúde do Ceará, Secretaria da Saúde. CE, 07/agosto/2020. Disponível em: https://www.saude.ce.gov.br/wp-content/uploads/sites/9/2020/02/nota_tecnica_SINDROME_INFLAMATORIA_07_08_2020.pdf Acesso em 01.10.2020.

 

[8] SÍNDROME INFLAMATÓRIA MULTISSISTÊMICA EM CRIANÇA ASSOCIADA À DOENÇA DO CORONAVÍRUS 19 NA AMAZÔNIA BRASILEIRA: EVOLUÇÃO FATAL EM LACTENTE. Scielo, 26/agosto/2020. Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103-05822020000100611&script=sci_arttext&tlng=pt Acesso em 06.11.20

 

[9] ABREU, Gabriel. Síndrome multissistêmica pediátrica pode estar associada ao vírus da covid-19. Jornal da USP, 09/set/2020. Disponível em: https://jornal.usp.br/atualidades/sindrome-multissistemica-pediatrica-pode-estar-associada-ao-virus-da-covid-19/ Acesso em 11.10.2020

 

[10] Estudo: crianças têm alta carga viral de COVID-19 e podem ser mais infecciosas. Estado de Minas (Estadão conteúdo), 20/ago/2020. Disponível em: https://www.em.com.br/app/noticia/nacional/2020/08/20/interna_nacional,1177749/estudo-criancas-alta-carga-viral-covid-19-podem-ser-mais-infecciosas.shtml#:~:text=Crian%C3%A7as%20possuem%20alta%20carga%20viral,Universidade%20de%20Harvard%20(EUA) Acesso em 22.10.2020

 

[11] Estado abre novos leitos de UTI pediátrica para atender pacientes de Covid-19. Diário de Pernambuco, 17/set/2020. Disponível em: https://www.diariodepernambuco.com.br/noticia/vidaurbana/2020/09/estado-abre-10-leitos-de-uti-para-atender-sindrome-rara.html Acesso em 16.10.20.

 

[12] Ocupação de UTI pediátrica para Covid-19 chega em 70% em Salvador: 'Nunca tivemos nº tão alto como esse', diz ACM Neto. G1. Rede Globo, 13/out/2020. Disponível em: https://g1.globo.com/ba/bahia/noticia/2020/10/13/ocupacao-de-uti-pediatrica-para-covid-19-chega-em-70percent-em-salvador-nunca-tivemos-no-tao-alto-como-esse-diz-acm-neto.ghtml Acesso em 15.10.20.

 

[13] Síndrome inflamatória multissistêmica em adulto com COVID-19. Sanar Medicina. Disponível no link: https://www.sanarmed.com/sindrome-inflamatoria-multissistemica-em-adulto-com-covid-19 Acesso em 11.10.2020.

 

[14] CAMARGO, Suzana. Diarreia e vômito são sintomas mais comuns em crianças com COVID-19, alerta novo estudo no Reino Unido. Conexão Planeta, 4/set/2020. Disponível em https://conexaoplaneta.com.br/blog/diarreia-e-vomito-sao-sintomas-mais-comuns-em-criancas-com-covid-19-alerta-novo-estudo-no-reino-unido/#fechar Acesso em 21.10.2020.

 

[15] BOEHM, Camila. Mortalidade por covid-19 é maior entre população negra em São Paulo. Agência Brasil, 28/ago/2020. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2020-08/mortalidade-por-covid-19-e-maior-entre-populacao-negra-em-sao-paulo Acesso em 22.10.20.

 

[16] Acabar com a pobreza em todas as suas formas, em todos os lugares. Fundação Abrinq, maio/2019, fls. 17. Disponível em: 

https://www.fadc.org.br/sites/default/files/2019-05/cenario-brasil-2019.pdf Acesso em 08.11.20

 

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