Sobre a Autora 

Fátima Diniz Castanheira é advogada em São Paulo, especializada em Direito dos Contratos e pesquisadora independente da previdência complementar patrocinada – fundos de pensão.

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Covid-19: volta às aulas colocará em risco a vida 9,3 milhões de adultos – idosos e grupo de risco

Os idosos e o grupo de risco enfrentam o perigo na volta às aulas das crianças e adolescentes, isto porque considerável parcela dos alunos vive com pessoas idosas ou do grupo de risco (portadoras de doenças crônicas como diabetes, pressão alta, dentre outras ou obesidade). Esses números foram levantados pela Fiocruz – Fundação Oswaldo Cruz.     

 

Dada a importância dessa pesquisa no contexto da pandemia, assim como na volta às aulas, reproduzimos a notícia divulgada pela Fiocruz em seu site em 23 de julho de 2020 [1]:

 

              MonitoraCovid-19: nota técnica alerta para riscos na volta às aulas

 

A volta às aulas pode representar um perigo a mais para cerca de 9,3 milhões de brasileiros (4,4% da população total) que são idosos ou adultos (com 18 anos ou mais) com problemas crônicos de saúde e que pertencem a grupos de risco de Covid-19. Isso porque eles vivem na mesma casa que crianças e adolescentes em idade escolar (entre 3 e 17 anos). A quantidade de pessoas que pode passar a se expor ao novo coronavírus foi calculada por análise da Fiocruz feita com base na Pesquisa Nacional de Saúde (PNS 2013), que foi realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em parceria com o Laboratório de Informação em Saúde (LIS) da Fiocruz.

 

São Paulo é o estado com maior número absoluto de pessoas nessa situação, cerca de 2,1 milhões de adultos e idosos em grupos de risco com crianças em casa, seguido por Minas Gerais (1 milhão), Rio de Janeiro (600 mil) e Bahia (570 mil). O Rio Grande do Norte é o que possui a maior percentagem da população nesses grupos: 6,1% do total.

Pesquisadores do Instituto de Comunicação e Informação em Saúde (Icict/Fiocruz) analisaram dados da PNS 2013 sobre dois grupos populacionais que se encontram nos chamados grupos de risco da Covid-19: os adultos com idade entre 18 e 59 anos que têm diabetes, doença do coração ou doença do pulmão, e os idosos (com 60 ou mais anos). Em seguida, cruzou os dados para verificar quantos desses dois grupos residem em domicílio com pelo menos um menor entre 3 e 17 anos – ou seja, em idade escolar. 

 

O resultado do estudo trouxe números preocupantes. Quase 3,9 milhões (1,8% da população do país) de adultos com idade entre 18 e 59 anos que têm diabetes, doença do coração ou doença do pulmão residem em domicílio com pelo menos um menor em idade escolar (entre 3 e 17 anos). Já a população idosa (60 anos e mais) que convive em seu domicílio com pelo menos um menor em idade escolar chega a quase 5,4 milhões de pessoas (2,6% da população). 

De acordo com o estudo, o retorno da atividade escolar, que vem sendo anunciado de forma gradativa por vários estados e municípios, coloca os estudantes em potenciais situações de contágio. Mesmo que escolas, colégios e universidades adotem as medidas de segurança (e elas sejam cumpridas à risca), o transporte público e a falta de controle sobre o comportamento de adolescentes e crianças que andam sozinhos fora de casa representam potenciais situações de contaminação por Covid-19 para esses estudantes. O problema é que, se forem contaminados, esses jovens poderão levar o vírus Sars-CoV-2 para dentro de casa e infectar parentes de todas as idades que tenham doenças crônicas e outras condições de vulnerabilidade à Covid-19, representando uma brecha perigosa no isolamento social que essas pessoas mantinham até agora.

 

Divulgado através da nota técnica Populações em risco e a volta as aulas: Fim do isolamento social, da plataforma MonitoraCovid-19, o estudo alerta para o fato de que “a discussão sobre a retomada do ano letivo no país não segue um momento em que é clara a diminuição dos casos e óbitos e ainda apresenta um agravante, que é a desmobilização de recursos de saúde e o desmonte de alguns hospitais de campanha”. 

 

Epidemiologista do Icict/Fiocruz, Diego Xavier, que participou do estudo, destaca que, até agora, a maioria desses milhões de brasileiros em grupos de risco e que têm algum estudante dentro de casa vinha se mantendo em isolamento social. “Mas a volta às aulas pode representar uma perigosa brecha nesse isolamento. Nós estimamos, no estudo, que se apenas 10% dessa população de adultos com fatores de risco e idosos que vivem com crianças em idade escolar vierem a precisar de cuidados intensivos, isso representará cerca de 900 mil pessoas na fila das UTIs. Além disso, se aplicarmos a taxa de letalidade brasileira nesse cenário, estaremos falando de algo como 35 mil novos óbitos, somente entre esses grupos de risco”, analisa Xavier. 

 

Christovam Barcellos, sanitarista e vice-diretor do Icict/Fiocruz, acha que seria recomendável que estados e municípios oferecessem aos pais informações necessárias para os cuidados que devem passar a adotar dentro de suas casas. “Se isso não for feito, muitos pais se sentirão inseguros frente à decisão de retomar os estudos presenciais dos seus filhos. Com a expansão da população exposta à infecção pelo vírus, deveriam também ser ampliadas as atividades de vigilância epidemiológica desses grupos vulneráveis por meio de testagens e acompanhamento clínico permanente”, afirma.  

Os dados sobre a população de risco podem ser consultados no sistema MonitoraCovid-19, desenvolvido pela equipe do Icict/Fiocruz.

 

A nota acima foi publicada no final de julho, mas como no Brasil ninguém se preocupa com os idosos, com o passar dos meses o foco das discussões da volta às aulas ficou restrito às questões educacionais, comportamentais e sanitárias dos alunos, deixando os idosos de lado.

 

Naquela época, acreditava-se que as crianças eram meros vetores e apenas transmitiam a Covid-19, por isso ninguém se preocupou também com elas. Mas a verdade emergiu com a constatação de cerca de 500 casos de Síndrome Inflamatória Multissistêmica no mundo, e agora com 486 casos só no Brasil.

 

Portanto, a volta às aulas trará risco não só para os idosos e grupo de risco, mas também para as crianças e adolescentes. Mas a síndrome será objeto de nosso próximo artigo porque o foco aqui é nos idosos, grande parte já dizimada pela Covid-19.

 

1.1. O perigo para os idosos que residem com crianças e adolescentes

 

A volta às aulas presenciais das crianças e adolescentes precisa ser avaliada com muita cautela e há de considerar ainda o risco de contaminação de pessoas idosas moradoras do mesmo imóvel.

 

Há mais de duas décadas, com o desemprego em massa, a casa dos pais foi transformada numa espécie de porto seguro, amparando os filhos desempregados com suas respectivas famílias. Muitos pais construíram casa nos fundos do quintal para abrigar esses filhos, mas, na falta de terreno, muitos permitiram a construção em cima da laje da própria casa. Desde então, a incidência desse tipo de moradia proliferou, sobretudo nas grandes cidades, e foi tão grande a ponto de obrigar o país à tutela do “direito de laje”. Foi preciso tutelar e resguardar o direito de quem, com seus parcos recursos, construiu a casa sobre imóvel alheio. Nesses imóveis convivem pessoas de todas as idades, por isso, o isolamento social é ali um enorme desafio.

 

Afinal, estamos chegando ao fim de um ano letivo já prejudicado pela perda de mais de 200 dias de aulas presenciais e é preciso avaliar os prós e os contras dessa volta. As crianças são o futuro do país e precisam ser preservadas e protegidas.

 

 

 

[1] MonitoraCovid-19: nota técnica alerta para riscos na volta às aulas. Fiocruz, 23/jul/2020. Disponível em https://portal.fiocruz.br/noticia/monitoracovid-19-nota-tecnica-alerta-para-riscos-na-volta-aulas Acesso em 03.11.2020.

 

Pesquisa registrada. Autorizada a divulgação desde que mencionada a fonte. 

 

 

 

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